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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O deus e a estátua de cera


Em uma aldeia, num dia nublado, um deus apareceu em esplendor e brilho, de tal modo que todos os pescadores do pequeno vilarejo prostraram-se aos pés dele ,  para tal visão  não possuíam nome, suas bocas não ousavam conceber nenhum e seus olhos não reconheciam tais cores jamais vistas.
Em meio á todo este cenário de perplexidade e excitação, o deus sorriu - um riso irônico e zombeteiro- depois de breve silencio disse gargalhando:
- Sou um engodo, uma farsa, a mais bela e poderosa das farsas!
Após proferidas tais palavras sua divina imagem se desfez no ar, causando espanto e deixando atônitos todos os presentes. De imediato os aldeões começaram a correr inquietos buscando espalhar a boa nova o mais rápido possível, já os artesões mais hábeis procuraram recobrar em suas memórias a imagem do deus.
Dias depois erigiram um templo no local onde tal aparição ocorrerá, em seu interior colocaram uma bela estatua de cera, aos pés dela choravam a perda e clamavam pelo retorno do deus.Desde de então a escultura serviu de molde, modelo e dogma ao qual toda beleza deve obedecer.
No entanto o deus escondido continuava a rir,  dizendo consigo mesmo:
- Tolos, choram aos pés de vazia, oca, cadavérica e fantasmagórica, imagem morta, segundo a qual querem submeter toda nova criação. Será que não percebem que aquela imagem era apenas uma dentre infinitas possibilidades? Não sentem as forças que as geraram? Elas podem gerar ininterruptamente e para sempre imagens tão vivas quanto às de outrora. Proclamam o retorno das divindades, entretanto em seus corações fechados nada sentem, em nome de um passado irrecuperável, matam tudo aquilo que ainda sequer nasceu!

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